BUZUM! CONVIDA: MÉRCIA FALCINI

BUZUM! CONVIDA: MÉRCIA FALCINI

Inaugurando a sessão “BuZum! Convida”, aqui do Blog do BuZum!, convidamos Mércia Falcini, Pedagoga e Psicopedagoga e responsável pela elaboração de todo material pedagógico do BuZum!, para participar aqui do Blog! Confiram o artigo da Mércia abaixo e boa leitura!

O menino de Eduardo Galeano

Ainda me lembro das palavras do meu professor de Psicologia dizendo do perigo dos extremos, sobretudo na formação da personalidade. Ter muito ou nada, fazer além ou aquém é igualmente arriscado no reino dos sentimentos… A felicidade e o bem-estar estão no equilíbrio e, ainda que este tempo nos imponha tantos excessos, precisamos encontrar o meio-termo e com ele conter os extremos.

Trabalhamos demais. Atropelamos o tempo necessário para criar, pensar e educar. Excedemos o limite do consumismo e, embriagados pelo desejo do mais, ignoramos a nossa capacidade reflexiva. E assim, nessa vida louca, de poucas horas, de correria exagerada, de pressa e pressão, cobrança e prazo, penso que nos acorrentamos.

Passamos do ponto e, em algum ponto, perdemos o controle. Exageramos e entregamos aos jovens um mundo de incerteza, medo e insegurança. Não sabemos mais como ajudá-los, orientá-los, educá-los. Estamos todos perdidos.

A escola se perdeu… A velha didática não suporta mais a velocidade e a quantidade de informação, embora insista na ideia de dar conta de tudo. Os alunos reclamam, mas os professores não escutam: o volume de conteúdo a cumprir fala mais alto. Aulas corridas, explicações apressadas, projetos relâmpago, livros volumosos e alunos solitários refletem a hiperatividade deste tempo, chamado pós-moderno.

A pressa domina a vida da escola e ignora o tempo do aprender. O livro de leitura ‒ raramente de literatura boa ‒ é jogado nas mãos dos alunos para que devolvam sua interpretação, poucos dias depois, em respostas a uma prova escrita. Cadê a roda de conversa que ensina o aluno a reconhecer a intenção do escritor e o sentimento ao redor da palavra? Cadê o desenvolvimento da competência de leitura das linhas e entrelinhas? Cadê a recuperação da aprendizagem que ficou no meio do caminho?

Não posso concordar com uma escola também embriagada pelo desejo do muito de nada. A escola precisa assumir-se como porto seguro, como chão firme que sustenta os passos dos meninos, sobretudo no enfrentamento do monstro assustador que é o seu futuro.

Penso que a escola perdeu sua essência. Pesquisas mostram que diretores estão cada vez mais distantes da gestão pedagógica. Muitos deles dizem não ter responsabilidade com o baixo desempenho da aprendizagem. Alguns, ainda, nem são vistos pelos alunos, tamanhas distância e ausência da atuação profissional.

Crescer, aprender e amadurecer intelectualmente requerem tempo, persistência e paciência. Requerem um professor comprometido com o desempenho do aluno e não com a sua vaidade intelectual. Quem nunca ouviu comentários, como: “o professor sabe muito, mas não consegue ensinar…”?

Com um pouco de vontade, muito interesse e bom senso, algo a fazer ainda é possível. Basta recuperarmos o sentido da educação em casa, na escola ‒ que é cuidar das pessoas e “ajudar a olhar”, como pediu ao seu pai, o menino de Eduardo Galeano, com 4 anos de idade, quando viu o mar pela primeira vez.

Mércia Falcini
merciafalciniPedagoga e Psicopedagoga, Especialista em Sistema de Gestão e pós-graduada em Teoria e Métodos de Pesquisa em Educação pela Unicamp e em Formação de Formadores. Com mais de 30 anos de experiência em Educação, atualmente é Professora Formadora, Diretora da Consultoria e Assessoria Saberes, Consultora da Fundação Pitágoras na implantação de Sistema Integrado de Gestão Avançada pelo Brasil. É cronista mensal no site Itu.com e autora do livro “Conversas Entrelinhas”, que reúne uma coletânea de crônicas focadas no desenvolvimento humano e educacional.

3 💬

  1. Randall Fidencio
    Sou fã! Conteúdo de alto nível, obrigado!!!
    deixe um 💬 junho 18, 2016 at 1:46 am
  2. Linda reflexão Mércia. Sou seu admirador, amigo, filho do coração e fico orgulhoso em saber que já acompanhei seu trabalho de perto no dia a dia.
    deixe um 💬 junho 18, 2016 at 2:50 am
  3. Berenice Balsalobre
    Bom dia Mércia, O Ministério da Educação tem um programa que propõe que as cidades, com todos os seus equipamentos culturais e educativos, façam parte da Escola. As cidades são museus a céu aberto. Mas falta a vontade de levar para aprender. Muito boa e oportuna a sua reflexão. Abs
    deixe um 💬 junho 23, 2016 at 10:08 am

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