BUZUM! CONVIDA: HENRIQUE SITCHIN

BUZUM! CONVIDA: HENRIQUE SITCHIN

Hoje na sessão “BuZum! Convida” do Blog do BuZum!, contamos com a participação de Henrique Sitchin, bonequeiro, autor, diretor teatral e criador da Cia Trucks, uma das mais importantes companhias de teatro de bonecos do país.

A INCRÍVEL RELAÇÃO DAS CRIANÇAS COM OS BONECOS

Entre os brinquedos preferidos com que brinquei com meus filhos, quando pequenos, já desde antes de completarem os seus dois aninhos de idade, sempre estavam os fantoches. Conto aqui um destes episódios.

Caíque tinha um fantoche jacaré destes de feltro, comprado em uma loja de brinquedos educativos. Eu costumava “vestir” o boneco e brincar com ele. Não demorava para que o jacaré começasse a “bater longos papos” com o menino. Um deles aconteceu, certo dia, após a sua volta da escola. Caíque estava, certamente, com menos de três anos.

– Oi Caííííque! Tuuuuuudo beeem? – pergunta o jacaré com sua voz bem grave e tremida.

– Tudo bem, Jacaré! Mas eu tô triste hoje.

– Triiiiiiiiiiste por queeeeeeeeee, Caííííque?

– Por que olha! – E então mostra ao jacaré, olhando fixamente nos olhos do fantoche, um machucado que tem nas costas. E segue contando, já com sua voz engasgada, misturando-se com um início de choro – O Jorge me mordeu!

– Caraaaaaaaaaambaaaaaa – fala o Jacaré, agora expressando a preocupação do pai que vê as marcas dos dentinhos do Jorge cravadas nas costas do seu “pobre e indefeso filhinho”. Volto ao jacaré, muito mais interessado em saber o que aconteceu, e porque o meu filho voltou da escola mordido, e pergunto, através do boneco, já bem ansioso por uma resposta:

– Poooooor queeee o Joooorge moooooordeeeeeeu? –

Caíque não tira os seus olhos dos olhos do jacaré, e responde:

– Porque a gente brigou e eu empurrei ele!

Certo, certo, meu menininho não é assim tão indefeso… Sigo com o jacaré:

– Eeeeeee pooooor queeeee vocês brigaaaaaraaaaaam?

– Porque o Jorge é chato e aí eu empurrei ele.

– Mas você empurrrrrrroooooouuuu o amigo só porque vocêêê achoooooooooooou ele chaaaaaato? Então vou te mordeeeeeeeeeer também! – Fala o jacaré, de forma marota, já provocando o riso no Caíque, que instantaneamente reage:

– Para, Jacaré! Não vai me morder, nada!

– Voou siiiim! – provoca o jacaré em um tom brincalhão.

– Não vai nada! – Protesta Caíque já em meio as risadas.

– Ah eu vooooooooooooooou. E vai ser agooooooooora!

Abro o bocão do fantoche e vou em direção ao Caíque, vagarosamente, fazendo um pequeno suspense. Ele se anima com a brincadeira, protege seu corpinho, enquanto eu me aproximo ainda mais. Olhando fixamente nos olhos do jacaré, esquecendo-se totalmente da presença do pai, o menino, já sem ter mais para onde fugir, ou como se encolher, lança a sua última cartada para se defender: arranca, rapidamente, o boneco da minha mão!

Neste momento, surpreso, paro o que eu estava fazendo, meio que sem reação. Minha mão, agora totalmente revelada, sem o boneco por cima, fica paralisada na posição em que estava ao segurar o fantoche. Caíque olha para o fantoche que agora ELE tem na mão, logo olha para o meu braço e para minha mão, já sem o boneco, volta a olhar novamente para o boneco, examina-o “vazio por dentro”, mais uma vez olha para minha mão, que continua parada, estática, e dispara, quase rindo (e o principal, olhando sempre para a minha mão):

– Jacarééééé, você tá pelado!

Solta uma gostosa gargalhada e me devolve o fantoche. O coloco na mão, o mais rapidamente que posso e, aliviado, faço o jacaré dizer:

– Prooonto, agora tô vestido de noooovo. Ai que vergoonha!

– Tá, mas não me morde – Caíque conclui e cai mais uma vez na gargalhada.

Eu, agora com minha voz, e tentando ter a firmeza de pai, interfiro:

– Ahã… Depois vou querer saber que história é essa de empurrar o Jorge, viu?

Sou ignorado. Caíque olha para o jacaré e o abraça com força.

Com Gabriel, o meu mais velho, eu já fazia, alguns anos antes, os mesmos jogos. Ele tinha um boneco do Mickey, de quem gostava especialmente. Em nossas brincadeiras, eu animava o boneco que, então, tinha com ele conversas deliciosas e, a pedidos insistentes do meu filho… Intermináveis. Vale lembrar que Gabriel chegava a contar coisas ao Mickey que não contava para mim, como se eu não estivesse presente. Eu costumava fazer uma voz bem agudinha para o personagem. Uma vez ou outra, já com a garganta cansada, colocava “na cena” a minha própria voz. Ele parava o jogo, olhava para mim, e protestava: “Papai, essa não é a voz do Mickey!”. Eu corrigia o “erro” e seguíamos batendo os nossos papos, digo, os papos do Mickey com ele. Aliás, quando queria brincar daquilo, meu filho pedia: “Papai, conversa com o Mickey?”. “Conversar com o Mickey” era fazer o boneco conversar com ele. O jogo era claro. Eu estava presente, mas não estava… Em um momento ou outro da brincadeira, eu pedia: “Gabi, agora o papai vai descansar um pouquinho, tá?” – E soltava o Mickey. Ele tratava de colocar o boneco de volta em minha mão, assegurava-se de que estava bem encaixado entre meus dedos, olhava fixamente em meus olhos e pedia: “Papai, conversa com o Mickey só mais um pouquinho”, e então… “Zás”! Seus olhinhos iam diretamente em direção aos olhos do boneco.

Ambos os meus filhos conviveram por muitos anos com a “aranhinha”, ora essa, uma aranha que tomava a minha mão direita emprestada para “encarnar”. Bastava colocar a minha mão na posição da aranha para o jogo imediatamente começar. Não foram poucas as vezes que quem os acordou, de manhã, foi a aranhinha, aliás, muito mais eficiente do que eu para a função. Bastava eu começar inocentes coceguinhas que já me pediam a presença da aranhinha para fazer as cócegas de uma forma “melhor”.

Conforme Gabriel foi crescendo, as brincadeiras com a aranhinha iam ficando mais raras. Certa vez, já com seus mais de seis anos, estávamos no sofá da sala brincando de disputar o controle remoto da TV, quando eu, por algum impulso, trago de volta a aranhinha para verificar se ela terá mais sucesso “do que eu” na luta contra as mãos rápidas do meu filho. A aranhinha toma o controle das mãos dele e se esconde embaixo da minha perna. Ele para o jogo, levanta a minha perna, de forma a revelar o “bichinho escondido”, esquece o controle remoto e comenta com muita ternura, logo abrindo um enorme sorriso: “Aranhinhaaaaaa, quanto tempo! Faz alguns anos que não nos vemos, néééé?”.

Estas passagens apenas trataram de me confirmar a incrível relação que as crianças estabelecem com os bonecos. No caso do “jacaré pelado”, vale reforço interessante: quando soltou a frase “jacaré, você tá pelado”, Caíque não olhava para o boneco de feltro, mas sim para a minha mão sem o boneco, na mesma medida que Gabriel ficou imensamente feliz em rever a aranhinha, na própria mão do pai com quem convivia diariamente, anos depois, como se ela de fato houvesse se ausentado durante um bom tempo.

Ou seja, eles viram na minha mão, vamos dizer, a essência motriz dos bonecos. Em outras palavras, quem sabe, as almas secretas destes seres, e acreditaram piamente nesta “realidade”, mas sem jamais perder de vista que se tratava de um jogo estabelecido comigo, o adulto da história. E aí está uma das características mais belas disto tudo: a criança QUER jogar com o adulto, e ela não somente SABE jogar, desde muito cedo, como também SABE construir as regras e os códigos do jogo. Sobretudo, transita de forma natural entre a fantasia e a realidade, e nos aceita prontamente como agentes “alargadores” da sua fantasia. A criança espera de nós que entremos neste jogo “para valer”. Somos reais e continuamos sendo reais, mas isto pouco ou quase nada interessa para elas. Não importa quem está jogando, mas, sim, interessa o jogo!

Aqui recorro ao mestre Giani Rodari, em sua obra “A Gramática da Fantasia”, para um aporte sobre esta ideia. Ele comenta: “Os adultos de boa vontade não cansarão de aprender com as crianças os princípios básicos da dramatização. E serão eles que, depois, a elevarão a níveis mais altos e estimulantes já que, com suas forças ainda limitadas, o pequeno inventor ainda não pode fazê-lo”.

Quando as crianças interagem com os bonecos, olhando-os direta e fixamente nos olhos, já expressam toda a sua disponibilidade e “entrega” para o jogo “de acreditar que estas criaturas estão vivas”. Constroem, elas próprias, a vida dos bonecos. Não há para as crianças qualquer dúvida da existência de vida nestes seres. A criança cria a vida onde não existe vida, e diverte-se com isto. É assim que crianças agem com toda a sorte de brinquedos, e também com os objetos à sua volta. Todos eles têm vida, desde muito cedo. Ouvi a história, contada por um amigo, de quando, com menos de dez anos, lavava a louça de casa imaginando que garfos e facas nadavam no mar que se formava quando a água caía na bacia, dentro da pia. Meu filho Caíque, hoje com quase nove anos, aliás, a exemplo do que Gabriel também fez rotineiramente, costuma discutir acintosamente com os “jogadores de futebol” do seu vídeo game, cobrando-lhes mais empenho, raça e atenção com o jogo, como se estes fossem, de fatos, reais, e não uma outras espécies de fantoches, manipulados por seus controles remotos.
A relação que se estabelece, entre o bonequeiro e a criança, é de extrema confiança. A criança confia que não iremos, nós, os bonequeiros, destruir o elo construído, que iremos respeitá-lo e, até mesmo, eu exagero, sacralizá-lo. Ela nos diz algo como: “Estou aqui de corpo e alma acreditando no que você está fazendo”. Creio que cabe a nós, os profissionais, respondermos com o compromisso: “Darei toda a minha alma, minha paixão, minha verdade e envolvimento máximos para que você jamais deixe de acreditar na vida destes bonecos!”.

A confiança é um acordo sagrado. É como dividir, entre duas pessoas, um fio muito frágil. Nenhum dos lados poderá deixar o fio romper. A palavra confiar vem da origem “fiar com”. Então imaginemos que uma criança nos entrega a ponta de um fio muito frágil. A outra ponta ela segura. Seguramos esta ponta que nos foi entregue, e não podemos deixar o fio romper, em nenhuma hipótese. Com um detalhe: a criança não romperá o fio, tenha certeza! O risco de quebrar o fio é todo do adulto.

Este é o jogo dos bonecos e, acredito, é o jogo de todo o teatro para as crianças. Creio que as crianças, quando vão ao teatro, nos dizem algo como: “Vim assistir à sua brincadeira, à sua história. Me faça crer que ela é feita de corpo, coração e alma!”.

Bonecos são poderosos. Nascem brinquedos, naturalmente aceitos pela criança como integrantes de seu universo. Acrescidos da alma que nós, bonequeiros, lhes emprestamos, podem ganhar conteúdo que fortaleça a imaginação das crianças, que discuta questões do seu tempo, com respeito, riqueza criativa e sem didatismos e moralismos. Assim transformam-se em encantadores seres com vida.

Brincar com bonecos é um jogo que aprendemos cedo como jogar, em nossas brincadeiras de crianças, e que seguimos intuitivamente desenvolvendo ao longo de toda a nossa existência. Parece ser patente a necessidade do homem de ver-se reproduzido em imagens ou formas, como maneira de entender a própria existência. O ser humano gosta e precisa deste jogo. Não há quem não tenha oferecido vida, alguma vez, a bonecos de pelúcia, ou até mesmo a copos e colheres, sem divertir-se e “entregar-se” neste jogo.

Talvez Pinóquio tivesse mesmo razão, na possibilidade que via de tornar-se menino de verdade, a despeito da descrença dos adultos…

Henrique Sitchin

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